29 de outubro de 2012

Pedido aos conterrâneos

Estou triste, muito triste, profundamente triste, e mais ainda por ter reagido com uma frustração absoluta, uma desesperança me tomando com jeito de definitiva. Eu disse que queria ir embora. Eu disse que não tinha mais como esperar por nada. Eu chorei várias vezes. Eu chorei e murchei com cada aparição de ACM Neto comemorando a vitória na televisão. Com um discurso que eu e a Bahia já conhecemos bem. Com gritos de que ACM voltou. Com aplausos para o fato de o falecido ser a referência do que vem por aí.

Eu lembrei de um monte de fatos de minha vida, que tem quase o mesmo tempo da vida do agora prefeito eleito de minha cidade, o mesmo tempo também da trajetória política do candidato que saiu perdedor. Lembrei de momentos em que estivemos, soteropolitanos, batalhando contra o Carlismo. E celebrando cada batalha vencida. E construindo uma atitude que nos tornou mais livres. Eu me sentia muito forte em estar participando daqueles acontecimentos, de alguma maneira. De ver o estado, para além da capital, negar este modelo.

Lembrei também que, há uma semana, eu estava conversando com meu namorado e ele disse que a gente tinha de fazer alguma coisa, quando eu assumi que estava achando que o Neto ganharia. Passei os últimos dias pensando no que eu poderia fazer. E me senti muito fraca. Porque pensei que o que faço todo dia pudesse ser suficiente para a minha cidade. Não que eu seja uma militante. Não que o PT me pareça inquestionável. Não que eu achasse que a eleição de Pelegrino pudesse transformar Salvador num paraíso. Nada disso, nada por aí. Eu só pensei que a minha dignidade, a correção do trabalho que exerço, o meu cuidado com a cidade em que nasci, a minha preocupação com os que dividem este espaço comigo, o meu senso do outro, a minha luta pessoal contra meus próprios preconceitos, a minha ansiedade por justiça, a minha atenção pela gentileza, a minha experiência prática de que existem modos reais de promover mudanças na sociedade, o testemunho de uma evolução social na Bahia e no Brasil – enfim, pensei que estas coisas bobas que me são tão verdadeiras e importantes fossem bastantes para que a maioria não desejasse um retrocesso político por aqui.

Aí me pergunto: onde foi que eu errei? Porque, sim, me culpo. Me culpo porque, de um jeito ou de outro, todos nós sustentamos a sociedade onde esta eleição ocorreu. Uma sociedade que, por um lado, começou, por exemplo, a discutir o modelo de nosso carnaval – um sintoma das nossas desigualdades e um exemplo de nossa vontade de retomar Salvador como nossa –, mas que, por outro, optou pelo elitismo, pelas secções, pela truculência.

Foi animador ver como o debate da população ocupou massivamente nossos dias de campanha, mas pergunto: Wagner realmente perdeu, como comemoram alguns? Essa briga tinha mesmo de ser com ele? Os professores e policiais realmente ganharam, como comemoram outros? Esta era uma questão pessoal, setorial ou de uma cidade inteira? A resposta estava mesmo em ressuscitar o que felizmente já estava moribundo?

Às vezes fica parecendo que o caso era um jogo de futebol em que éramos apenas torcida, vibrando ou lamentando gol de um, gol de outro, placar final, e pronto, vai pra casa, tirando onda por ter sido do lado que ganhou, xingando por ter sido do lado que perdeu – ou ignorando futebol, né?, que nem gosto de futebol, nem torço para estes times... Aonde! Não deveria ter sido por um, por outro, contra um, contra outro... Deveria ter sido por nós, que estamos todos enfiados no campo também. A bola pode parar em seus pés.

Então eu também retomo em pensamento o que viemos vivendo nos últimos oito anos, e revejo a situação em que a cidade se encontra... Um estado de lástima unânime, que nos roubou a autoestima, que nos convenceu de que Salvador é o terror dos terrores, que nos trouxe uma ode coletiva contra nós mesmos. Salvador está assim irritadiça, e a ebulição de nossos piores diagnósticos nos esfrega na cara que o problema não está só em quem ocupa a cadeira de prefeito, mas também na mentalidade de nossa gente. O bicho tá pegando. E a gente precisa constituir em Salvador uma atitude social que se baseie na humanidade. (Sabe, vou dizer, eu tenho amigo que tem casa porque o Minha Casa, Minha Vida ajudou a comprar – e se você disser que história de amigo não vale porque é coisa individual, eu retrucarei, porque meu umbigo está longe desta conversa, assim como deveriam estar os umbigos de todo mundo –; eu sei de história de gente que está transformando o rumo de sua família porque entrou em universidade por conta das cotas; eu reconheço que uma pessoa que está miseravelmente excluída da sociedade precisa de apoio financeiro para comer; eu vejo que medidas emergenciais podem ser tomadas enquanto o árduo processo de transformação do Brasil acontece, ou tenta acontecer.)

Então, me resta pedir aos meus conterrâneos que não me deixem sucumbir. Eu não quero, não posso, não vou me permitir continuar sentindo esta sensação de impotência que me acomete agora. Aos que votaram no 13 comigo, peço que a oposição se mantenha, mas que não vacilemos na perseguição, e que cobremos e apoiemos políticas públicas que possibilitem nosso desenvolvimento. Aos que se abstiveram ou votaram em branco/nulo por acreditarem que isto estaria demonstrando o seu desapreço com ambos os candidatos, peço que continuem questionando o que ACM Neto propõe. Aos que votaram nele para serem contra o PT ou Pelegrino, peço que tenham a mesma intolerância para não permitir o reestabelecimento do Carlismo. E aos que votaram em ACM Neto por convicção... bom, peço que revejam seus conceitos.

Conterrâneos, devolvam-me a esperança de viver numa Salvador melhor!

29 de maio de 2012

Para Valdir

É quando eu deito a cabeça em seu peito e sinto o cheiro do seu perfume, ou, ainda melhor, de sua pele, que entendo a simplicidade do que é satisfação. E eu não desejo nada que não tenha isso nos meus dias, como o melhor lugar de me recostar. Gosto de saber que este colo é meu e que ele está ali para me receber de todo jeito, como quer que estejamos. Gosto que seja o meu descanso e o meu vigor. Que a gente se cuide e se estremeça.

Fico me deliciando com a expectativa de que faça a barba, para sentir a fragrância do pós-barba que me traz à mente tantos momentos e que me faz, mais uma vez, reconhecer a minha paixão. Porque também me lembro que quando você chega eu me avanço com o nariz, e que, quando tudo ainda era início, eu ficava feliz de você já acertar o que me faz bem. Você acertou. Eu acertei.

Quero poder te arrancar sorrisos e gargalhar contigo em nosso mundo que a gente tem aqui guardado, que a gente faz existir independentemente de tudo. Como é bonito que a gente multiplique amor com quem nos ama, mas mais bonito ainda é que nosso ninho seja impenetrável (e que não exista nada mais valioso que a nossa intimidade). Como é gostoso quando a gente decide que tudo que a gente quer é esquecer que existem coisas senão nós dois, e passam horas, dias, sem que precisemos lembrar que há. E o bom de sair é voltar.

Aí de novo eu vejo as pontinhas dos seus lábios, a dupla de sinaizinhos em cima da sua boca, os olhos bons, as pernocas em que me agarro, os desenhos de você, e acho tudo toda vez mais lindo, e beijo, beijo, beijo, beijo. Sinto tanta vontade de te fazer carinho!

Agradeço a mim por, há um ano, ter decidido que te queria. Por ter ido te falar. Agradeço a você por, há um ano, me dizer sim, repetidamente, diariamente. Agradeço pelo seu ímpeto, firmeza, delicadeza. Por a gente aprender junto. Por dançar My Valentine comigo. Pela infinidade de coisas que compartilhamos. Você consegue contabilizar? Eu consigo. Eu tô vendo na minha frente e sorrindo de novo.

Obrigada pelo equilíbrio, pela verdade, pela sorte de um amor tranquilo, com sabor de melão no café da manhã e de felicidade escolhida.

Eu te amo.


24 de abril de 2012

Das autoajudas

O restaurante do Madison Plaza, na Pituba, já foi um dos meus lugares preferidos de comer comida a quilo em Salvador. Hoje em dia, a comida de lá é apenas ok – quando tem sal, porque muitas vezes simplesmente falta sal. No entanto, eu frequento o local mais do que nunca: é que, agora, fica do ladinho de minha casa.

Dia desses, estava eu lá incomodada com uma exposição de pinturas que inventaram de montar nas paredes. Outras vezes eu já tinha passado o olho e achado horrível, mas, nesta última oportunidade, eu sentei de frente para a maioria das telas e fiquei nervosa com elas. Tratam-se de quadros que retratam máscaras. Feios de doer. Entre uma garfada e outra, ainda me dei de ler um texto de apresentação colocado em uma das obras, algo tipo: “Quantas vezes você já não utilizou uma máscara dessas ao mentir?”.

Nossa. Fiquei comovida com tamanha provocação. Uau. Que forte. Que desafiador!

Lembrei-me dos tempos em que eu trabalhei com Recursos Humanos – e das tantas dinâmicas de grupo comuns deste universo. Em minha opinião, dinâmicas de grupo são, de modo geral, das coisas mais constrangedoras que já inventaram. Especialmente porque, quando se encaixam naqueles projetos de “integração” e “motivação”, via de regra, elas pretendem transmitir “mensagens”. No final, naquele momento de traduzir o que foi “experimentado” pelos participantes, as lições de vida explodem para todos os lados. E, nossa senhora, eu fico perplexa e me afundando em mim mesma de vergonha com os inestimáveis ensinamentos transmitidos. (Por outro lado, eu acho que aquele climinha alegre típico de grupos que acabaram de sair destes sufocos é justamente vindo do fato de terem compartilhado – e sido cúmplices – do embaraço alheio, além de, claro, terem podido não trabalhar naquele dia.)

O que mais me intriga, no entanto, é por que as revelações pretendidas quase sempre giram em torno da máxima de que “Você é especial e único”. Ah, bata-me um abacate.

Acho um equívoco absurdo esta história. Individualmente, nós somos nada além do que serezinhos, bichos humanos, nascidos por acaso, que têm necessidades básicas para continuarem vivos, que vão sobrevivendo aos dias. Nós só temos sentido em articulação. Não entendo por que reforçar a ideia de que somos importantes por sermos quem a gente é. Bilhões de pessoas são, e isto muito mais faz mal ao mundo do que o enriquece.

No mesmo dia em que almocei embalada pelas imagens das máscaras me rondando, precisei caminhar pelo Pelourinho. Era dia de chove-não-chove. Algumas poças estavam formadas na rua. No passeio, obras no casarão em que trabalho impuseram andaimes para os operários poderem pintar a fachada. Os pedestres, como eu, tinham de avançar um pouco no espaço dos carros para poder passar. Não é uma situação de se admirar: os condutores, protegidos em seus veículos, pouco se lixam se está difícil para você atravessar aquele espaço entre ferros, guarda-chuvas, gotas caindo e outras pessoas circulando. Um carro me atravessou em alta velocidade, fazendo-me espremer num canto para não ter um pedaço meu arrancado, e ainda levantando com gosto a água acumulada num buraco da via, dando banho em quem estava ao redor. Dá vontade de ir lá dar um beijo e cantar o hino nacional, de tanto orgulho.

Para não ter um siricotico de ódio, fiquei mentalizando que o cidadão deveria estar levando algum moribundo para atendimento de emergência. Ainda assim, não consegui evitar a conexão de pensamentos: parem, meu Deus, de ensinar que as pessoas são especiais. Mostrem que elas precisam é olhar para o lado.

9 de abril de 2012

Aleluia

“Não tinha noção da complexidade e criatividade que envolvem a gravação do CD de uma banda séria. Agora que não compro CD pirata mesmo!”

Este trecho, de um dos preciosos comentários postados no blog A Ponte ao longo dos quase 22 meses que a página está no ar (desde 17 de junho de 2010), é uma boa referência para resumir o privilégio que tive de acompanhar a gestação do Aleluia, o quinto álbum do Cascadura.

Participei presencialmente de apenas uma sessão das gravações. Fui ao estúdio t, na antiga sede da Federação (hoje em dia, o templo sagrado do nosso andré t tem casa nova, no Rio Vermelho), e fiquei algumas horas vendo Fábio Cascadura colocar a voz em algumas canções. Que puta experiência é testemunhar um troço desses. Porque nasciam ali músicas que, já na primeira audição, me hipnotizaram. Eles botaram algumas outras já prontas para eu ouvir e eu olhava nos olhos de Fábio, de andré, de Thiago, de Jô, e perguntava em pensamento: como assim, velho? Que é que é isso?

Mas o foda, foda mesmo, é que eu estava então podendo escutar pela primeira vez os frutos daquilo que eu conhecia em teoria. Além de felizmente conviver com os caras responsáveis por este disco duplo de 22 faixas e acompanhar o dia-a-dia deste processo mágico, desde a seleção do projeto em edital que o financia e tornou possível ao momento de revisar as letras impressas no encarte, eu atuei como uma espécie de editora do já citado blog, que funcionou como um espaço de compartilhamento do processo criativo e dos bastidores de produção do novo trabalho.

Caralho. Eu queria poder ter garantido que todas as pessoas que gostam de música e merecem alegrias tivessem acompanhado as atualizações do blog, quase todas escritas por Fábio Cascadura. Até porque o negócio aqui extrapola gostar ou não do resultado, ou da banda: a questão fundamental é a possibilidade de observar o ofício de artistas comprometidos, profissionais, que pensaram em cada detalhe, que resgataram referências, que trouxeram um conceito para uma obra, que se desafiaram.

Então ao ouvir aquele barulhinho lá ao fundo da música, aquele instrumento surgir imponente, aquela letra de conteúdo histórico, aquele batuque, aquela voz diferente... tudo faz sentido. Nada está colocado à toa, de forma impensada. Tudo tem argumento. Tudo tem razão.

É o caso, por exemplo, de “Um Engolindo o Outro”, cujas batidas de pés, que marcam o ritmo da música, recriam a work song, que eu só soube do que se trata por conta de um dos meus posts favoritos publicados em A Ponte. Aliás, vem também deste post não apenas o comentário citado no início deste texto, mas ainda uma das pérolas que fazem parte do conhecimento enciclopédico de Fábio a respeito da música de todos os tempos, de todos os lugares, e que eu incluo aqui porque não canso de me emocionar com esta apresentação. Foi isso: no blog, muita coisa boa, além-Cascadura, foi introduzida. Que sorte a minha não ter perdido nenhum detalhe.

Chico Castro Jr., jornalista e colunista do A Tarde, comentou também em A Ponte: “Rapaz, só tenho uma coisa a dizer: gente que de fato conhece seu ofício e sua arte me dá gosto. Muito.”
Pois é, Chico, pois é.

Enfim, o Aleluia está pronto e já tem data de lançamento virtual marcada: 8 de maio, no Facebook do Cascadura. Não sei nem descrever a emoção de ter chegado a hora.

3 de abril de 2012

Sumiços

Dezembro, como de costume e íntima razão de alegria, foi mês de transição. Uma transição simples e pouco problematizada, novidade que deste modo tenha sido, mas, ainda assim, transição.

Janeiro foi mês de tentar entender se era Verão ou se era eu tentando ser Verão num tempo em que tanta coisa me surgia.

Fevereiro foi mês de trabalho árduo, ininterrupto e excitante.

Março foi mês de momentos ainda mais lindos, emoções imensas, acontecimentos ímpares, coração tomando rajadas de felicidade com as coisas da vida.

Abril chegou. E eu pareço só entender as coisas quando abril chega.