Mostrando postagens com marcador relações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador relações. Mostrar todas as postagens

29 de maio de 2012

Para Valdir

É quando eu deito a cabeça em seu peito e sinto o cheiro do seu perfume, ou, ainda melhor, de sua pele, que entendo a simplicidade do que é satisfação. E eu não desejo nada que não tenha isso nos meus dias, como o melhor lugar de me recostar. Gosto de saber que este colo é meu e que ele está ali para me receber de todo jeito, como quer que estejamos. Gosto que seja o meu descanso e o meu vigor. Que a gente se cuide e se estremeça.

Fico me deliciando com a expectativa de que faça a barba, para sentir a fragrância do pós-barba que me traz à mente tantos momentos e que me faz, mais uma vez, reconhecer a minha paixão. Porque também me lembro que quando você chega eu me avanço com o nariz, e que, quando tudo ainda era início, eu ficava feliz de você já acertar o que me faz bem. Você acertou. Eu acertei.

Quero poder te arrancar sorrisos e gargalhar contigo em nosso mundo que a gente tem aqui guardado, que a gente faz existir independentemente de tudo. Como é bonito que a gente multiplique amor com quem nos ama, mas mais bonito ainda é que nosso ninho seja impenetrável (e que não exista nada mais valioso que a nossa intimidade). Como é gostoso quando a gente decide que tudo que a gente quer é esquecer que existem coisas senão nós dois, e passam horas, dias, sem que precisemos lembrar que há. E o bom de sair é voltar.

Aí de novo eu vejo as pontinhas dos seus lábios, a dupla de sinaizinhos em cima da sua boca, os olhos bons, as pernocas em que me agarro, os desenhos de você, e acho tudo toda vez mais lindo, e beijo, beijo, beijo, beijo. Sinto tanta vontade de te fazer carinho!

Agradeço a mim por, há um ano, ter decidido que te queria. Por ter ido te falar. Agradeço a você por, há um ano, me dizer sim, repetidamente, diariamente. Agradeço pelo seu ímpeto, firmeza, delicadeza. Por a gente aprender junto. Por dançar My Valentine comigo. Pela infinidade de coisas que compartilhamos. Você consegue contabilizar? Eu consigo. Eu tô vendo na minha frente e sorrindo de novo.

Obrigada pelo equilíbrio, pela verdade, pela sorte de um amor tranquilo, com sabor de melão no café da manhã e de felicidade escolhida.

Eu te amo.


7 de novembro de 2011

Mais do que prezo

Eu era uma meninota quando vi, num daqueles programas populares e cotidianos que Regina Casé apresentava, uma entrevista que ela fez com um rapaz dentro do carro dele: um automóvel todo enfeitado, cheio de penduricalhos e mostras de sua personalidade exorbitante.

Em certo momento, em meio à conversa descontraída, Regina disse ao moço:
– Eu queria ter nascido homem.
Ele emendou na lata:
– Eu também.

Regina gargalhou. Eu ri junto com ela. E achei fofo. Criei carinho instantâneo. Contei esta história mil vezes na época e ao longo da vida. Nunca esqueci esta cena. Empatia de quem entende de desajustes, talvez.

----------------------

Eu tenho mania de querer ser amiga de gente que não conheço. E que muito provavelmente não conhecerei. Gente cujos olhos e atitudes me fazem acreditar que seríamos bons companheiros. Eu queria ser amiga do moço que queria ter nascido homem. E de Lula, Marieta Severo, Sean Penn e, recentemente, de Janelle Monáe.

Quem sabe eu confie demais nas impressões imediatas que tenho das pessoas. Quem sabe estes preconceitos – que não escapadamente são do que isto se trata – acabem me afastando de bons sujeitos, ou me aproximando de bons atores. Mas não consigo fazer diferente. Nem me esforço para tanto. Acredito na boa percepção que tenho das coisas da vida, sou doentemente observadora e minhas leituras, no fim das contas, costumam me poupar desgastes. Não gosto de perder tempo. Gosto de ter clareza do que me atrai e do que me repele. Conheço essa lista. Acredito no que sinto.

----------------------

Silvana gosta de ler os nomes das pessoas grafados por aí. O nome da amiga Cláudia estampado na capa da revista batizada da mesma forma a atrai. Por isso, ela me deu de presente uma garrafa de Doña Paula e, tempos depois, uma bonequinha jogadora de tênis que também é minha xará – ainda encaixotada, ela enfeita a estante de minha sala como um sinal do carinho que Silvana me ensina existir livre e solto pelo mundo.

É que de fato não é difícil reconhecer, mesmo de longe, quem tem peças que encaixam nas nossas. Quando olho para minha boneca Paula, lembro que não é preciso fazer esforços hercúleos para sermos queridos. Que relações não precisam derivar de batalhas. Que conquistas não devem ser alívio de labutas. Que débitos, desequilíbrios e desgastes não são saudáveis. Arturo me disse esses dias: “Eu já entendi que quando parece que você precisa lutar, na verdade, é pra desistir”.

Silvana e eu nos conhecemos há já alguns bons anos. Não posso dizer que somos exatamente amigas, mas a gente se curte, se paquera e se cuida de um jeito nosso. Eu e ela também dialogamos muito através de nossos textos (e, nossa, quantas e quantas vezes me vejo em suas palavras!). Acho bonito como Silvana mergulha em si mesma, os questionamentos que ela se faz, a forma como se desafia. De certa maneira, parece, sabemos que podemos confiar e contar uma com a outra. É simples, é sem cobrança e pronto: de repente, um mimo, uma escrita, uma conversa, uma mensagem no celular, um encontro agradável. E assim, com seus sinais de delicadeza, Silvana me faz atentar para o prazer de poder ser afetuoso, de fazer surpresas, de nutrir sorrisos.


----------------------

Não. Eu não sou fofa. Dou, aliás, cada vez mais valor à inestimável importância da intolerância. Mas sou honesta. Cada afago que ofereço é reflexo de minha busca por contribuir para a felicidade daqueles que estimo. E gosto de ser profunda.

Não há nada de superficial no meu convívio com Silvana, por exemplo. Nem com outras pessoas que escolho participarem dos meus dias sem, necessariamente, termos intimidade, confidências trocadas, telefonemas frequentes, visitas agendadas. Tem gente que eu gosto, e muito, que eu admiro, e muito, sem compromisso algum. Mas com comprometimento, cuidado e respeito. Aposento-me de quem não se preocupar igualmente com o meu bem-estar.

13 de agosto de 2008

Vida

O cheiro que eu carrego é nosso.
O cheiro que me vem ininterrupto, que me faz fechar os olhos e sorrir.
O cheiro que se sobressai enquanto caminho, enquanto trabalho, enquanto me lavo, enquanto sigo vivendo.
O cheiro que eu carrego é nosso.




Olho para a esquerda
e te vejo dormir.
- Dorme, dorme,
meu amor.
Dorme bem e
sonha com o nosso
cheiro...

30 de junho de 2008

Recorrente

Mais uma vez, me perguntaram se eu me apaixono.
A pergunta sempre vem simples e direta, em uma forma curiosa de quem parece estar tentando entender um comportamento desconhecido:
- Paula, você se apaixona?
Pronto, é assim.
Minha reação sempre é de espanto, por mais que eu já devesse estar acostumada. Às vezes, eu acho que a pessoa está querendo me testar. Às vezes, eu acho que é piada. Por fim, sou convencida de que é uma dúvida honesta e me vejo intimada (na verdade, mais por mim mesma do que pelo outro) a dar uma resposta em tom de discurso. E solto um texto rasgado... apaixonado.
- Paula, você se apaixona?
- Sim, eu me apaixono. Droga, merda, eu me apaixono, caralho!, que maluquice é essa?

[Só espero não me apaixonar mais uma vez justamente por quem me questiona isso.]




Já escrevi sobre esta pergunta aqui também.
Ai, ai.

22 de abril de 2008

Vamos ao teatro?

Vamos.
Temi quando o flyer me avisou que eu iria chorar. Não estou boa para isso, não. Fiquei tensa.
Só que eu não chorei, nem gostei muito.

Ao final, recebemos mais um panfletinho, que guardei nem sei porquê.
Vinte e quatro horas depois, resolvo ler. Me deparo com um texto que eu estava há dias tentando construir na minha mente. Seria um plágio feito através de leitura de pensamento caso não tivesse sido escrito em 1974.

Compartilho.

=====================================

Movimento dezesseis. Eu sei que fui tão fraca quanto um diálogo de bêbados, tão torpe quanto uma reticências, tão vil quanto um copo mal tomado.

Dói-me a palavra superar que falaste em meu nome. Dói-me o beijo negado. Dói-me o termo acontecido. Dói-me essa coisa que é a tua verdade e jamais será a minha. Digo-te compreensiva: compreendo. E compreensiva sofro as tuas decisões. Quantas noites me serão entregues para que eu as regue com esse furor existencial e louco? De quem falarás em meu nome para confortar a tua angústia? Não vês que sou um ser humano que expele flores e fugas com a mesma intensidade? Tudo tem sido igual desde o princípio. Nada tem mudado para este pobre cérebro privilegiado. Para esta triste cabeça maravilhosa. E eu estou farta de sonhar tudo aquilo que não deverá acontecer. O apolíneo da vida tem me eriçado os cabelos. Tem me atormentado e enlouquecido. Tem.

Mas não te culpes. Quando te escolhi não te deixei o encargo de me fazeres feliz. Seria complicado. Eu esperava apenas sensações puríssimas e isto se deu. Portanto faze-me sofrer se queres. Posso suportar o sofrimento com um estoicismo digno dos profetas. Faze-me repetir que amo oitocentos milhões de vezes usando para cada uma delas as vozes esdrúxulas de um velho barqueiro do Pireu ou de uma esganiçada garota propaganda. Faze-me ajoelhar sobre este joelho quase mecânico que sobrou do último acidente e dizer-te mais uma vez que deus é o fruto de minhas angústias diárias. Que existes tu. Que tu és a luz e a verdade. Essa verdade que temo encontrar mas que procuro como se a identidade.

Faze-me feliz se queres. Se não queres faze-me infeliz. Se nada queres vai para que eu sofra como tenho sofrido cada abandono. Nada direi do teu abandono que forjei. Não te acusarei como tenho acusado minhas mais torpes realizações. Para mim foste o princípio de uma pureza que eu jamais chegarei a acreditar que exista. Para mim foste a cor e todos os cinemas e casacos do mundo e o amarelo das cervejas e o vermelho do vinho e o arco-íris da felicidade. Para mim foste a cor como se antes eu não possuísse retina.

Mas não racionalize esta ida que te é difícil também. O amor existe ou não existe. Só é parcial a vontade de quem ama parcialmente.

Não nos outorguemos o direito de recriar a liberdade. Ela já é tão difícil falada nas prisões nos hospitais nas salas de estar. De star. Não vamos atormentá-la sob esse ar poluído que chamam de livre ou sobre os jardins públicos da cidade que pertencem a todos mas que a ninguém é dado caminhar sobre a grama. Vamos deixar a liberdade em paz e sentir e dizer apenas aquilo que está agora dentro de nossos sentidos. Se queres beijar bater acariciar morder cuspir que queiras o que queres. A recusa racional é um ato sórdido. Diga não quando teu corpo for um calafrio de repúdio e não puderes beijar a boca que te beija. Não racionalize os atos do amor. Eu ainda não aconteci em teus sentidos. Ainda sou aquela que atrai teu corpo para perto dos sofás dos carros blindados das mesas de bar. Com que direito analisas um ato que não entendes? Que não entendo?

Pretendo ser simples. Quero ser simples. Tenho dito da minha simplicidade com uma pureza insofismável. Tenho dito com essa pureza tudo aquilo que aprendi com a tua cor. Meu fardo é grande. E repito. Se queres faze-me sofrer. Dize-me: vai e eu irei sem palavras. Te beijarei a boca se quiseres. Farei amor contigo ou te mandarei a minha cabeça ensangüentada envolta em papel de seda para o teu álbum de artistas anônimos. Mas não racionalizes essa coisa pela qual cortarei a cabeça. Pela qual me arrebento agora. Pela qual me arremessarei ao fogo como Joana. Pela qual morderei as estátuas de ferro da praça da república. Pela qual morrerei. Não me espere superar uma crise que já teve o nome de amor. Não me proponhas a mediocridade ainda uma vez porque de ti veio a cor. Porque és a cor e da tua cor foi feito o meu princípio que outrora era o verbo. E hoje é uma infindável catarata de gestos ternos.

[Aninha Franco]

7 de março de 2008

Óbvio

Tomei coragem e escrevi de ponta a ponta o nome inteiro, desenhando cada letra com bravura, ciente do resultado que viria e da palavra que se formaria. Foi uma decisão consciente empunhar a caneta e fazer com força as linhas que tornariam tudo sólido, visível, compreensível. Legível. Fiquei assistindo minha mão espalhar a tinta, formando aquilo diante de meus olhos. Escrevi. Com cuidado e capricho. Demorei mais na primeira consoante, com certo medo de seguir em frente, assustada com o que me impulsionava a superar o que nego: assunção. Vai lá, pega e escreve, não é o que tem vontade de pintar pelo seu caderno? Então respirei, abri a página, abri e olhei o papel em branco: vai. Comecei reticente, cuspindo com os dedos. Trêmula, viciada, meio infantil. Linha, letra, risco, pronto. Não sei quanto tempo durou. Passou rápido e lento, talvez congelado, talvez sem mim, certamente distante dos que pudessem estar vendo, também surdo para quem estava falando. Depois de completo, acho que sorri por um instante e fechei o caderno. Acho que parei por meio segundo e li inteiro. Acho que foi forte demais. Revejo na mente, não sei quando terei novo ímpeto para buscar a página usada neste bloco de tantas folhas.

26 de fevereiro de 2008

De como as lágrimas secaram

Eu estava apaixonada. Bobamente e deliciosamente apaixonada. Com gosto de vida acontecendo, de vontade indisfarçável, de que tudo é sim, de que o coração acelerado impulsiona sem medida, em que não há tempo, não há dificuldade. Com aquela felicidade que, de tão boba, é sem letra. Com aquela cara besta reconhecível de longe, e as mãos seguram o queixo para dar suporte às viagens da mente, aos olhos perdidos e ao riso incontido. Aquela paixão nova que te transporta para filmes, com trilha sonora escolhida, com dança pelas ruas, com gosto do beijo e sensações vividas pulando na memória a todo tempo, fervendo mais a euforia, até transbordar.

Eu estava bem pelo que estava sentindo. Ele, não. Mas eu não sabia. Não claramente.

Saímos, como em qualquer outro dia. Desta vez, porém, rodamos a cidade inteira discutindo o que pensávamos e como víamos aquilo tudo. Foram horas. Horas de uma conversa muito difícil, muito honesta. Muito dolorosa.

Paramos num posto de gasolina. Vou pegar uma cerveja. Ele fica no carro. Minha amiga me liga.

- Tudo bem?
- Não, não está. Mas não me pergunte a razão. Se eu falar, vou chorar, e o choro está aqui na ponta do olho, e eu não quero virar uma poça de lágrimas neste momento.
- Chora, não é melhor?
- É. Mas não agora, não aqui. Não vou falar mais. A lágrima está quase se formando, está quase pingando. Vou secá-las à força. Mas não demoro de chegar em casa. Aí te ligo e conto e choro tudo.

Olhei para o alto, esperei o olho molhado ficar seco. Voltei para o carro. Voltei para casa. E não chorei mais. Não saiu. Nunca mais. Nunca mais chorei por ninguém.

17 de janeiro de 2008

Uma dor sem resposta

E quando alguém que está terminando um relacionamento, cheio de medo e coragem misturados, pergunta: "Será que um dia eu serei feliz para sempre?", o que é que se responde?

14 de janeiro de 2008

- Você se apaixona?

- Ahn?? Se eu me apaixono?
- A impressão que tenho é que você é tão independente, mas tão independente, que é auto-suficiente...

Sim, eu me apaixono. Me apaixono e gosto de me apaixonar. Me apaixono fácil e acho este o tempero mais gostoso da vida. Me apaixono por detalhes e busco razões em tudo para me sentir apaixonada. Que seja um beijo, um segundo, um relance. Adoro me sentir encantada e encontrar motivos para que meus olhos brilhem. Eu futuco, eu observo, eu pergunto, eu garimpo. Eu preciso descobrir e matar minhas muitas sedes. Sempre me entrego, seja qual for o modo que esta entrega possa ser vivida. Não quero o mais ou menos, nem a sensação de estar gastando meu tempo com algo que não tenha poder de ser fulminante – e me esbaldo com a intensidade que não sei deixar de ter ao experimentar o mundo. Eu sou assim, uma pessoa de paixões. Sou tão dada e escrava do que sinto que me torno contraditoriamente independente. Sou dona do que sou e não tenho medo do que desejo. Sim, eu me apaixono, me apaixono sempre. Nunca é vão.

21 de novembro de 2007

Só deixo meu coração na mão de quem pode

É um saco blog cheio de letra de música, sim, um saco bem cheio. Mas Clóvis veio e me apresentou esta daí como sendo meu hino. Gostei. Queria mesmo que fosse - tão simples. Meu coração não é tão regrado, talvez também não tão exigente, e o ciúme nem sempre é só vaidade. Publico, porém, porque gostaria de ser segura e decidida a ponto de cantar isso como meu. Não sou tudo que pareço e enceno. Não tenho a força e a gentileza que em mim enxergam. Tenho mais medos e angústias do que o previsto, guardo lágrimas contidas da vergonha que sinto por ser gente quando se dizem surpresos por eu ser como sou. Temo a média que apontam ultrapassada por mim - que raça é essa, então, eu que sou esse pouco daqui? Temo e busco quem não me diga tanto. Garimpemos enquanto há impulso, enquanto há carência. No resto do tempo, sejamos sociais, obrigada. A verdade é que desisti do mundo há tempos, habito por dentro, virando do avesso, entrando pela boca até voltar ao normal - e começar de novo. Só eu entro em mim. O que está por fora, já que está aqui, sorri e se diverte, finge estar em casa. Lastimar-se é perda de tempo, já que não tem jeito, existem coisas mais gostosas a se fazer. Queria que fosse meu hino não só pelo que mostro, mas também pelo que vivo. Publico. Que assim seja.




Só deixo meu coração na mão de quem pode
Fazer da minha alma suporte pra uma vida insinuante
Insinuante anti-tudo que não possa ser
Bossa Nova hardcore
Bossa Nova nota dez
Quero dizer
Eu tô pra tudo nesse mundo
Então só vou deixar meu coração
A alma do meu corpo
Na mão de quem pode
Na mão de quem pode e absorve todo céu, qualquer inferno
Inspiração de mutação da vagabunda intenção
De se jogar na dança absoluta
Da matança do que é tédio, conformismo, aceitação
Do “fico aqui, vou te levando nessa dança”
Submundo pode tudo do amor
Pode tudo do amor
Porque não quero teu ciúme que é o cúmulo
Ciúme é acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo
Projetado, assim jogado
Como lama anti-erótica na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa
E eu não tô à toa
Eu sou muito boa
Eu sou muito boa pra vida
Eu sou a vida oferecida como dança
E não quero te dar gelo
Jealous guy
Vê se aprende, se desprende
Vem pra mim
Que sou esfinge do amor
Te sussurrando: decifra-me
Só deixo minha alma, só deixo o coração
Só deixo minha alma na mão de quem pode
Só deixo minha alma
Só deixo meu coração na mão de quem ama solto
Eu vou dizendo
Que só deixo minha alma, só deixo meu coração
Na mão de quem pode fazer dele erótico suporte
Pra tudo que é ótimo fator vital

(Katia B, Marcos Cunha, Plínio Profeta, Fausto Fawcett)


Ah! Leiam isso. Indico.

Ai, ai.

31 de outubro de 2007

“Porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”

Uma vez, escreveu para repetir - e falar pela primeira vez algumas coisas também - que sentiria saudades, que adorou tê-lo conhecido, que se divertiu muito, que vai ser bom contar a história para os netos, que o playground do seu prédio não seria mais o mesmo, que encontrar gente que nem ele é raro, que era bom beijá-lo até com gosto de cachorro-quente, que ele foi muito legal em entender o seu mau-humor temporário, que foi bacana falar pelos cotovelos e contar tantas histórias enormes (e que se sentiu acolhida e confortável a ponto de fazer confissões íntimas que não costuma anunciar por aí), que gosta das coisas que ele conseguiu dizer em meio a seus monólogos e que elas estarão confidencialmente guardadas, que tentou fugir daquele encontro com início, meio e fim programados, mas que não conseguiu, que teve vontade de bater nele por ele não tê-la deixado quieta no seu canto, que teria tido ainda mais vontade de bater nele se ele a tivesse deixado quieta no seu canto, que foi bom dançar com ele, beber com ele, fazer farra com ele, que a lista do que admira nele é longa, excessivamente longa, que era meio doido estar então no papel do terceiro elemento e ter noção do espaço que podia ter em sua vida (e que achava que a esposa dele é uma mulher de sorte), que adorava suas ligações carinhosas e adorava mais ainda os elogios que ele fazia, que ficava rindo feliz das aventuras adolescentes, que transar com ele era delicioso, ainda que não tivessem deitado juntos numa cama, que foi bonitinho ele testemunhar o momento mulherzinha dela diante de uma barata, que lhe viam à cabeça algumas frases bastante piegas, que o desejava o melhor desta vida e que gostava dele de verdade.
E disse:
“Boa viagem, boa volta, boa vida, se cuida.”

(Título roubado de Drummond.)

15 de outubro de 2007

Quem o chamou?

Eu pus a língua para fora e me entornei em copos cheios de gelo. Um homem fardado se aproximou e me fez elogios com um tom rude, quase com raiva de ter gostado, parecia. Foi a primeira vez que me chamaram de patricinha e que não tomei como ofensa – mas, pensando bem, não me vem à memória outra situação em que isso tenha acontecido. Patricinha, eu? Não ousaram um julgamento deste antes, decerto. Eu ri e fiquei sem conseguir mais, durante alguns minutos, tirar o riso da cara. Ficou preso. Eu deveria ter desconfiado de que isso é coisa de polícia, este poder carregado em cada palavra, cada espaço, cada reticência, esta força ensaiada. A despeito disso, não perdi a pose. Nunca me incomodei mesmo com a avaliação feita sobre mim. Será que ele achou que eu iria baixar a cabeça? Será que ele achou que eu iria recuar, negar, me sentir envergonhada? Fato é que eu não tentaria recompensar minhas vulgaridades – o tempo para gastar com isso me reserva coisas melhores. Pus a língua para fora mais uma vez, e outra e outra, ao que ele disse que minha conduta se assemelhava à de ofídios peçonhentos, enquanto confessava se atrair por isso quase como quem se diz masoquista, “maltrata que eu gosto, maltrata que eu gosto”. E eu me apaixonei por cada vírgula e o riso ficou mais preso e eu não parava de repetir em pensamento o que escutei, letra por letra. Hedonista, safada, frívola, despudorada, fútil, venenosa. Onde surgiu tamanha capacidade em usar palavras perfeitas assim, de modo tão escandalosamente envolvente? Quando aprendeu a dizer exatamente aquilo que vai deixar a outra com vontade de ouvir mais? O que devo fazer para que não acabe? Para que me xingue e encare?

Diz-se retardado diante de uma mulher!

7 de outubro de 2007

Domingo

Eu fico aqui com o cheiro de ontem, o cheiro da fumaça e do suor, da sujeira no chão, do carro descuidado. Das músicas que cantei, do tom de voz descontrolado, dos risos sem-vergonha, de toda falta de vergonha, melhor dizendo. E os copos, as pedras de gelo, as conversas forçadas e as tentativas de me afastar de uns chatos. Ainda do meu disfarçado modo de procura, a procura mal sucedida e eu olhando de canto. Do teatro, do balde azul, da moça que acho bonita, dos degraus, da maquiagem, do desfile cuja repercussão desconheço. Máquina fotográfica, falação, sanduíche, fome, fome, fome e só como porcaria. Recapitulo em busca de decifrar os pedaços deste cheiro de hoje, os discursos, a curiosidade, os risos, o telefone, o amanhecer, o "boa noite".
E eu dormi na cama mais gostosa do mundo.

25 de setembro de 2007

Quebra-cabeça

Dani me perguntou:
- E aí, como é isso?
E eu respondi:
- Na verdade, Dani, vou ser bem honesta: a única coisa chata de eu ter uma tatuagem com o nome do meu ex é ter de responder sempre a esta mesma pergunta.

Quando eu e Angelo terminamos, meu pai lamentou: "Poxa, tá vendo?, não se faz uma coisa definitiva assim, vai ter de conviver com isso agora".

E lá vou eu.
Pois foi naquele momento, eu acho, que me dei conta de que o problema com o qual eu teria de conviver seria esse.

Quando nós decidimos escrever na pele o nome um do outro, claro que eu não pretendia me separar. Mas também não era o pensamento de que ficaríamos juntos para sempre que motivava a minha escolha. Não sei de onde as pessoas tiram a idéia de que eu poderia ter ido fazer esta tatuagem me garantindo nisso. A única certeza que existia era de que o registro seria eterno e ficaria comigo até o meu fim. Pronto. Eu quis, nós quisemos, fazer a marca da nossa passagem, sem nunca poder prever aonde ela chegaria. Angelo foi o homem que me fez optar por isso, que me fez acreditar nisso, o que já me foi e é suficiente.

As pessoas arregalam os olhos, perguntam "e agora?", dizem "que merda, hein?", fazem "pshhhh!", tentam me dar carão, ficam com pena, balançam as cabeças, perguntam se estou bem... Tudo isso simplesmente porque perguntam "quem é Angelo?", e eu digo que é meu ex-marido. Nossa, é um alvoroço. Eu rio, ou simplesmente dou um beijo na tatuagem, não tenho saco de argumentar com qualquer um.

Não fui eu que disse isso a Renata, provavelmente ela questionou a algum amigo em comum, porque já chegou em mim sabendo de tudo e falou a coisa mais legal que já ouvi sobre esta situação: "Vocês devem ter sido um casal e tanto para serem os únicos que já vi na vida que não pretendem cobrir uma tatuagem do tipo, admiro vocês". Bingo.

Dizem que um dia eu vou mudar de idéia, mesmo quando explico toda essa história. Dizem que um dia eu não quererei mais ter esta marca em mim. Mais uma vez eu prefiro não tentar adivinhar o futuro. O que importa, de fato, é que agora eu não tenho a mínima intenção de tentar apagar esta escolha tão especial e verdadeira. Angelo nem precisaria estar na minha pele para estar eternamente no meu coração.

11 de maio de 2007

Combinação

Admirar pessoas é uma delícia. Talvez por não ser algo que acontece sempre, talvez porque servem de referência, talvez porque é bom descobrir tesouros, talvez porque eu sou osso duro de roer.

É uma viagem.

É uma verdadeira viagem descobrir razões em pessoas pelo mundo para que se tenha motivos de achá-las "especiais".

Estou revisando o livro de Cury. Tem sido um trabalho árduo, porque tenho dedicado muito carinho e horas à tarefa - haja noites viradas, em meio a tantas outras ocupações -, mas tem sido maravilhoso. Nas primeiras páginas, na introdução que ele fez, estava lá meu nome, como "uma das escolhidas" para fazer parte deste processo. Eu babei meia hora em cima da puxação de saco que ele fez. É como o próprio falou em algumas páginas depois: Cury era fã convicto de uma banda e, belo dia, foi convidado a compô-la. Sobre o episódio, ele disse algo do tipo: "não há emoção maior"...

E não há mesmo.
Neste sentido, tenho vivido umas coisas realmente emocionantes, e não existe palavra que melhor defina a sensação.

Quando Cury decidiu que iria realmente pôr em prática o projeto do livro, eu fui e me ofereci. Ele foi e aceitou. Eu fui e fiquei sem nem como dizer. Ele foi e levou lá em casa, num envelope com meu nome, o impresso original. Eu fui e disse o quanto estava feliz por isso. Ele foi e me deu de presente um manual de redação fantástico. Eu fui e ainda estou indo em meio às histórias do meu querido Cury.

É uma coisa doida esta, de você conquistar a confiança e de sentir alguma reciprocidade de pessoas que você admira muito. Ricardo Cury é, talvez, mais osso duro de roer do que eu, mas sei que ele sabe o quanto o admiro, o quanto o acho fantástico. De todas as pessoas que conheci através de Angelo, ele é, de longe, o mais querido. E já ultrapassou a barreira de ser o amigo do namorado. Cury é sensato, honesto, sangue bom. Além de inteligente, bonito e instigante. Cury me deixa cheia de pulgas atrás da orelha e acho isso ótimo. Gente que desperta curiosidades é a melhor coisa do mundo. Estou infinitamente feliz por estar metendo meu dedo num projeto dele, mesmo ele dizendo lá no próprio livro que acha o meu trabalho uma bobagem...

Tem também a maior banda de rock da Bahia na atualidade. Sou fã confessa deles. Eu ouço e re-ouço as músicas e não canso. Poucas coisas são melhores do que Queda Livre e Gigante para meus ouvidos (e outras tantas mais...). Canto sempre como se fosse a primeira vez. Acho Fábio genial em suas composições e sempre soube quem ele era. E ele só soube quem eu era, e talvez nem lembre disso, quando, no fim do ano passado, o recebi para uma entrevista na TV. Junto com os outros três integrantes da Cascadura.

E, então, há uns meses, por caminhos que esta vida nos leva, Fábio e Thiaguinho me chamaram para fazer a assessoria de imprensa da banda. Era a minha mais pura explosão de felicidade, fazer parte desta equipe é uma realização que eu nem projetava. Mais que isso: conhecer os meninos mais a fundo tem sido incrível. Eu já nem sei dizer o quanto gosto e admiro eles. É demais. Fábio é foda. Fábio é um gentleman, cheio de idéias, cheio de histórias, cheio de qualidades: digno, batalhador, talentoso, atencioso. Thiago é a coisa mais querida do mundo. É um amuleto de boa energia, sua mente não pára e sua atitude perante a vida me inspira - e ainda me deixa hipnotizada. Candinho e Tiago Aziz ainda estão sendo descobertos, mas também são ótimos. Me sinto privilegiada ao extremo. Engraçado que, no meu aniversário, Fábio escreveu que me admirava... Bobo... Este papel é meu.

A história de "recompensa" mais forte, no entanto, vem de Alex. Porque Alex me deu um trabalho da porra. E porque eu sou a fã mais abestalhada que ele tem.

Foi assim: quando eu era colega de Arturo e Érica, entre nossas fofocas diárias, falamos de blog. Àquela altura, não era algo que todo mundo tinha. Mas eu tinha, Arturo também, e Érica decidiu que iria ter. Um dia, algum deles me apresentou ao LLL. Eu acho que foi Arturo, Arturo disse que foi Érica, mas eu acho que fui eu que mostrei Alex a ela... Enfim, não sei mais dizer quem mostrou a quem.

Acontece que, de mansinho, eu me apaixonei. Comecei lendo aqui e ali e, quando vi, estava viciada. Estou viciada há quatro anos. Leio sempre, tudo - menos as resenhas chatas de livros; não quero saber dos livros, quero saber dele mesmo e pronto. Vez ou outra, eu passei a comentar as escritas. Depois, pulei para os e-mails - e Alex não me dava a mínima, nunca respondia a nada. Eu não ligava muito, porque eu me sentia satisfeita por fazer minha parte. As argumentações de Alex me deixam admirada. Profundamente. Os textos das prisões são uma das coisas mais legais que já li na vida. Passei a citá-lo em minhas conversas. Passei a aprender com ele. Uma clara referência do que quero ser quando crescer - não tão pervertido e desmiolado, mas tão livre quanto... E, vejam só, belo dia, ele me respondeu. Me deu meia-bola. Monossilábico, mas deu sinal de vida. E até cedeu um de seus textos para o falecido NúmeroG, da falecida Letrasete.

Foi um avanço vê-lo publicar histórias de minha vida, que eu contava para ele com intimidade, em seu blog - cheio de disfarces, trocando nomes e endereços, eu só dava risada, esse Alex... Então ele me adicionou no msn. Quis saber mais de mim (só que Alex quer saber mais de todo mundo, ele é um compulsivo por histórias de gentes todas, isso não dizia muito).

Então, sei lá mais como, sei lá mais porquê, ele me concedeu confiança e me tomou como cúmplice de segredos e de publicações protegidas e de assessora de imprensa de seu trabalho. Não fomos muito à frente com a tarefa (apesar de eu estar disponível para qualquer uma que vier), mas demos passos largos na amizade.

Outro dia, ele me apresentou a Marcela, esta coisa de doido, pelo msn. Uma conversa a três. E disse: "quero ir a Salvador única e exclusivamente conhecer vocês duas". Marcela, não sei de você, mas eu me senti a mulher mais maravilhosa do mundo depois de ouvir isso. Alex está chegando e estou ansiosa pelas massagens nos meus pés. Poucas pessoas no mundo merecem tanto minha admiração quanto ele merece.

Voltando ao início: admirar pessoas é uma delícia. Admirar e ser admirada é sublime.

-----------------------

P.S.: Quando fui contar a Arturo, toda feliz, o que Alex tinha dito sobre sua vinda a Salvador, Arturo me olhou com cara de desprezo... Pensei, sobre meu amigo que desdenha das coisas, "ih, lá vou eu levar bronca". E ele disse: "Paula, você é mesmo uma boba. Não sei porque você se maravilha com isso. Você é uma das pessoas mais interessantes que alguém pode conhecer, isto é absolutamente normal". Ai, meu Deus, eu amo Arturo mais que tudo.