Depois que as horas passavam e as atividades se esgotavam, chegávamos em casa exaustos, eu e Pedro, meu irmão mais velho, mas nunca livres da árdua tarefa de encarar banho e escovação de dentes. Era difícil manter olhos abertos àquela altura...
Enquanto, então, nos vestíamos e preparávamos as coisas para o dia seguinte, meu pai ia cumprir também o seu ritual. Prontos, eu e Pedro deitávamos e esperávamos ele voltar. Aí meu pai, sereno, entrava no quarto, desdobrava os cobertores já colocados nos pés das camas, sacudia para deixá-los bem soltos e, num movimento embalado umas duas ou três vezes antes do levantamento final, ele cobria cada filho. Um beijo no rosto, um "boa noite" suave no ouvido e o apagar da luz embalavam o sono de modo incomparável.
A soma daquilo tudo – cansaço feliz, banho tomado, lençol limpinho e cheiroso, o ventinho que ainda hoje consigo sentir, o toque do cobertor sobre o corpo e a presença intensa do meu pai – faz esta cena ser a minha maior referência de carinho.
Para mim, não há gesto mais carinhoso do que cobrir alguém.






