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10 de setembro de 2008

Acolhimento

Quando eu era pequena, dormir na casa de meu pai sempre era o ato final de um dia gostoso. Como a gente não se via muito, como não havia convívio diário, os encontros com ele eram preparados para ser especiais: dias cheios, idas e vindas, passeios, sol, risadas, almoços e jantares, tudo cheio de alegria. Minhas memórias sobre isso são deliciosas, as sensações que me vêm são de muita satisfação e felicidade.

Depois que as horas passavam e as atividades se esgotavam, chegávamos em casa exaustos, eu e Pedro, meu irmão mais velho, mas nunca livres da árdua tarefa de encarar banho e escovação de dentes. Era difícil manter olhos abertos àquela altura...

Enquanto, então, nos vestíamos e preparávamos as coisas para o dia seguinte, meu pai ia cumprir também o seu ritual. Prontos, eu e Pedro deitávamos e esperávamos ele voltar. Aí meu pai, sereno, entrava no quarto, desdobrava os cobertores já colocados nos pés das camas, sacudia para deixá-los bem soltos e, num movimento embalado umas duas ou três vezes antes do levantamento final, ele cobria cada filho. Um beijo no rosto, um "boa noite" suave no ouvido e o apagar da luz embalavam o sono de modo incomparável.

A soma daquilo tudo – cansaço feliz, banho tomado, lençol limpinho e cheiroso, o ventinho que ainda hoje consigo sentir, o toque do cobertor sobre o corpo e a presença intensa do meu pai – faz esta cena ser a minha maior referência de carinho.
Para mim, não há gesto mais carinhoso do que cobrir alguém.

18 de junho de 2007

Dezoito de junhos passados

Vez ou outra, releio coisas que escrevi no passado. Pode ser em diários, agendas, cadernos, anotações, arquivos no computador ou nas inúmeras páginas onde estão os textos dos blogs antigos que tive.

Hoje, li coisas que publiquei no dia 18 de junho de tantos anos que se foram por aí.
Vou dividir duas delas.

Em 18/06/06
Machucados

Era um menino esperto e livre, gostava de andar de pés descalços e sujá-los a ponto de marcar o chão com suas pegadas. Ele dançava e pulava de repente, porque se sentia às vezes inspirado por emoções que simplesmente deixava virem. Apesar de criança, sabia o que queria e entendia o que trazia por dentro. Só tinha medo de ter medo, seu desafio era este. Não recuava, não deixava de se ver e não deixava de dizer. Reclamavam de sua teimosia e boca suja, porque acontecia de surpreender com escândalos e brigas sem fim. O menino achava aquilo injusto. Não podia ser condenado por ser birrento, era apenas verdadeiro.

O menino agora homem traz consigo sua infância. Ele a mostrava inevitavelmente, gostava muito de ser assim. Era o que trazia de mais precioso e queria preservar os traços mais institivos e honestos de sua personalidade.

O menino, agora homem, só não sabia que tantas coisas iriam obrigá-lo a endurecer.


Em 18/06/05
Rave entre amigos

No sonho, ela sentiu muita vontade de dar beijo na boca. Era vestígio do álcool e de sua pulsões internas - porque a bebida deixa todo mundo mais assanhado mesmo e não ter que podar os desejos fazia a menina se sentir enormemente viva, como precisava. Então dançou como há muito não fazia, de olhos fechados, batendo os pés no ritmo das estocadas nos ouvidos, sem passo certo, até a perna doer. Rindo e se divertindo a la cenas cinematográficas, daqui e dali dava uns beijos em boca de mulher e de homem, misturados entre gargalhadas loucas e novos pulos. E goles de vinho. E brincadeiras descompromissadas. E inveja alheia. A energia que se fez despertar, que não veio do outro, mas fluindo dela para ela mesma, quase incomodou o sono, apesar de ser sonho. Quando o olho abriu, ela pegou rápido o telefone e contou baixinho as estripulias da viagem noturna. O prazer não era de sexo, não era isso. O prazer era do novo, do livre, do amor que permite.

18 de maio de 2007

Maioridade

Alex propôs o desafio já há um tempo, eu lembro de ter achado interessante, mas nada escrevi. Hoje, ele me mostrou o texto de novo e eu decidi fazer a viagem no tempo...

COMO FORAM OS MEUS 18 ANOS

Tenho boa memória, lembro de histórias com detalhes assustadores, sei reconstruir tudo de todas as coisas, mas não me veio à mente, de imediato, casos específicos ocorridos nesta idade. Mas tenho uma ferramenta que fui buscar no baú. Pois sim, fato número 1: aos 18, eu fazia diário. E ele está guardado, intacto, até hoje, junto com muitos outros.

Abro a capa e me deparo, de cara, com um adesivo. "Juventude é Lula Presidente, o Brasil para todas as tribos". Àquela época, eu realmente achava que Lula mudaria o mundo. Votei com fé.

O ano era 1999.

Acordei no dia 26 de abril na maioridade. Lembro de ter achado isso muito interessante. Fui de manhã cedo para a primeira aula de um curso básico de computação. Eu estava em férias de um semestre inteiro. Havia sido aprovada no vestibular, no início do ano, para o curso de Psicologia, na Ufba. Mas passei para o segundo semestre e fiquei seis meses inventando o que fazer. Esta foi uma das coisas mais legais de minha vida. Férias, férias, seis meses de férias.

Passei a tarde do meu aniversário em um salão. Usava cabelo comprido desde sempre e fiz um corte radical. Curto, com mechas vermelhas e cor-de-mel. Estava magérrima. Aquele corpinho eu nunca mais vi, mas o corte ficou até hoje. Desde então, meu cabelo nunca mais passou dos ombros. À noite, teve um jantar para amigos na casa do meu pai. Aparecer uma drag queen em uma festa para fazer piada da cara do aniversariante era coisa super nova, e eu achei o máximo quando a perua surgiu do nada.

Quatro dias depois, ganhei meu primeiro celular: um tijolão que tinha sido de minha mãe. Aquilo era uma arma. E, já em 99, era ultrapassadíssimo, passei muita vergonha por causa dele.

[São João aos 18, em Senhor do Bonfim. Com Nanda prima, Verônica e Nanda Sarno.]

Eu namorava. Namorava desde os 16. Era apaixonadinha. Tem um milhão de corações espalhados na agenda. Eu usava aparelho. Aparelho transparente. Não percebo muita diferença entre o antes e o depois, mas meu pai, dentista, achou que era bom eu usar. Topei, mas tinha de ser transparente, porque não queria boca de lata.

No dia 8 de junho, vivi pela primeira vez a morte de uma pessoa próxima. Meu avô paterno faleceu. Foi tudo muito triste, mas minha família por parte de pai tem uma alegria tão legal que, depois do sepultamento, fomos todos ficar juntos lá em casa - todos os tios, primos, amigos próximos, sem deixar a dor ser maior que o amor. Ficamos dois dias seguidos assim.

Ganhava mesada e tinha de viver com o que ela dava. Eu fazia curso de teatro, fiz por muito tempo. Nunca pretendi ser atriz, mas me divertia bastante com aquilo. Larguei o hobby aos 18 mesmo. Tirei a carteira de motorista. Fiz um curso de formação em massoterapia. Fiz um curso de respiração. Fiz também um de formação para ser professora de Inglês. Fui atacada e mordida por dois cachorros de uma vez. Conheci Paulo Afonso, a cidade onde meu pai nasceu. Ele levou os quatro filhos para verem cada cantinho de sua infância. Eu achei tudo um saco, eu era ainda mais mal-humorada do que sou hoje em dia.

As minhas aulas de Psicologia começaram em 9 de agosto. Eu amava algumas disciplinas, detestava outras e nunca consegui chegar no primeiro horário. Estar às sete da manhã dentro de uma sala de aula já era problema aos 18. Albergaria, meu professor de antropologia, me abriu os olhos para um monte de realidades. Ele é um símbolo deste momento. O primeiro semestre do curso foi revolucionário. Cresci em seis meses o que não havia crescido em 18 anos. Conheci amigos especiais; questionei coisas importantes. As consequências não demoraram a surgir. Comecei um termina-e-volta com o namorado. Descobri lugares e pessoas e livros e teorias. Fui enlouquecendo em diversos sentidos.

No dia 23 de dezembro de 99, assisti ao meu primeiro show dos Los Hermanos. Num lugar chamado Manatee, que era breguérrimo, para pouquíssimas pessoas. Aliás, até que estava cheio, mas, depois de a banda tocar Anna Julia, todos correram para o espaço da boate. E eu fiquei, grudada no palco baixinho, que deixava a banda quase à altura do público, com uns gatos pingados, cantando todas as músicas de trás para frente. Foi lindo. O amor pela banda não morreu aos 18, acho que não vai morrer nunca.

Foi também aos 18 que fui pela primeira vez ao Calypso, o refúgio mais clássico do rock em Salvador. E fui mais e muito mais vezes depois, sempre com amigas que queriam me botar no mau caminho. Eu fazia farra pra caramba, um monte de doideiras. Não tanto quanto hoje, mas fazia. Festa particular à noite na praia, viagens de galera (a de Morro de São Paulo com duas amigas lindas foi inesquecível), shows sem fim, muitas madrugadas, muitas cervejas, carnaval... Ia para cima e para baixo, toda independente, não contava caso para nada. Pegava meu buzu e lá ia eu. Só que era uma menina muito bem-comportada. Mesmo. No drugs, beijo em uma boca só (só abri exceção no carnaval, sou baiana, ora bolas), várias notas 10 na faculdade. Uma lady.

[Morro de São Paulo, com Tissi. Delícia de viagem. Dá para ver meu aparelho transparente? Dá? Dá?]

Eu tinha um bilhão de dúvidas, um bilhão de idéias. Comecei a ter consciência de minha própria vida e a querer estipular os moldes de como eu gostaria de viver. "Isto me faz feliz, isto não me faz feliz". Eu todo dia achava que estava mais madura que no dia anterior, cheia de coisas borbulhando na cabeça. Uma verdadeira menina de 18 anos.

Não sei se sinto saudades ou se acho ótimo isto tudo ter passado.
Prefiro meus 26, prefiro muito, mesmo querendo ter feito tantas coisas diferentes neste espaço de tempo que me separa dos 18.

14 de março de 2007

Debutante

Meu pai, como de costume, veio me buscar em casa no sábado de manhã para eu passar o fim de semana com ele. No carro, conversamos bobagens até que ele tomou coragem e falou:
- Tenho uma surpresa para você.
E eu soube na hora do que se tratava:
- Já sei.
- Já sabe? O que é?
- Já sei sim. Cecília está grávida.
- Nossa! Isso aí! Não é legal? Cecília está grávida!

Eu não disse nem que sim nem que não. Fiquei quieta, calada. Até hoje não sei como eu soube que a surpresa era essa, ninguém nem falava neste assunto, não havia nenhuma expectativa minha quanto a isso. Eu simplesmente entendi na mesma hora. E foi tão natural e óbvio que nem fiquei feliz nem nada. Parecia uma notícia qualquer. Cecília está grávida, pronto. Grandes coisas. Tive uma atitude de total indiferença, apesar de ter esta cena gravada na memória com uma nitidez enorme, lembro até onde o carro estava passando na hora da notícia.

Ao chegar na casa de meu pai, fui para o quarto brincar com meu irmão. Cecília estava em casa e parou na porta. Eu só disse "oi". Meu pai mandou:
- Dê os parabéns dela! Ela vai te dar mais um irmãozinho.
- Ah, tá: parabéns.
Levantei, dei um abraço nela e um beijo na barriga.

Acho que foi nesse exato instante que eu me apaixonei. Passei nove meses grudada naquela barriga, vibrando, torcendo, amando. E eu tinha certeza de que seria uma menina. Eu e meu irmão Pedro decidimos que a família deveria seguir a regra e colocar nela um nome iniciado com a letra "P". Nem demos chances de ninguém escolher nada, porque passamos a chamá-la de Patrícia e pronto. Fiquei viciada. Patrícia, Patríca, Patrícia. Sonhava com seu rostinho, imaginava o que iríamos fazer juntas, conversava horas com a barriga, ficava sentindo os chutes, ajudei a escolher o enxoval, arrumava o quartinho dela, só falava neste assunto. A minha ansiedade era a maior da família, eu não aguentava mais esperar o nascimento.

Então, no dia 14 de março de 1992, meu pai ligou para minha casa:
- Quer conhecer sua irmã? Corre para cá, ela nasceu.

Desci louca pela rua, gritei Pedro, que estava brincando com uns amigos, e fomos em comitiva, uma meninada enorme, conhecer a minha irmã. Pat nasceu numa clínica que ficava na minha rua, fomos correndo, eu nem acreditava, um êxtase sem tamanho. E quando vi aquele trocinho pequeno, vermelha que nem tomate, carequinha, com unhas enormes, totalmente indefesa, eu nem sabia o que fazer. Era a coisa mais linda do mundo. Do alto dos meus 10 anos, fiz dela minha boneca preferida, meu xodó, meu grande amor. Foi uma delícia.

Pat continua linda, uma garota cheia de virtudes, meu orgulho. Hoje, no dia do seu debut, olho para a minha loira de olhos azuis e penso em quanta felicidade ela já me proporcionou. Sou absolutamente fã, absolutamente boba. Adoro vê-la se transformar cada vez mais em alguém que desperta paixões instantâneas que, depois, se concretizam em formas mais sólidas inevitavelmente. Como acontece comigo a cada dia que a olho e sinto meu amor aumentar. Minha bonequinha é minha paixão eterna.

Parabéns, minha RIMÃ, pelos seus 15 anos.


Em 1992


Em 2007 (não é linda de doer?)