5 de maio de 2011

Catarina Costela

Por mais que eu finja bem, não sou uma mulher simpática. Nem dada. Nem muito aberta. Sou capaz de conviver anos com pessoas sem que elas nunca ouçam nada íntimo sobre mim. Raros são aqueles a quem chamo, de verdade, de amigo. Porque amizade dá trabalho. Porque amizade demanda tempo, atenção, disponibilidade. E eu não me disponho a isso à toa. Meus amigos são muito bem e cuidadosamente escolhidos. Levo tempo até abrir espaço em meu coração. A estabelecer este tipo de relação de troca absoluta – e oferecer minha lealdade, que é o que dou de mais valioso. Construir este pacto, para mim, é um movimento sagrado. Um milagre bom de ver realizado. É que é isso, né? Amizade é um negócio mágico. Alguém que se cruza com você nesta vida de milhões de possibilidades, e que você reconhece e diz: ei, vem viver comigo?

Eu e Catarina nunca fomos apresentadas. De tanto que nos cruzávamos, de tantos conhecidos comuns, de tanto passarmos uma ao lado da outra, de tantas histórias conectadas, começamos a nos cumprimentar: “boa noite, tudo bem?”. Pura gentileza de quem já estava achando ridículo fingir que não sabíamos da existência uma da outra. Então pronto: “Oi, Catarina”. “Oi, Paula”.

Já houve comentário de que nossa aproximação foi repentina. Talvez tenha quem pense que foi estratégica, cômoda. Recapitulo tudo e fico muito emocionada. Desde aqueles gestos educados iniciados em 2007, as circunstâncias da vida nos colocaram em contato constante. Assim, dia a dia, lentamente, fomos nos descobrindo. Nos olhando. Nos checando. Saindo. Viajando. Conversando. Compartilhando. E vendo, com cada nova experiência, que havia uma vaga reservada no peito para a consagração final.

Não esperávamos por isso, tampouco precisávamos disso. Somos, privilegiadamente, rodeadas de amores que pareciam ser suficientes. É possível que isto tenha deixado tudo acontecer ainda com menos pressa. É certeza que isto nos comprova, todo o tempo, que nosso vínculo é muito forte – e que há sempre amor para se multiplicar. Foi uma escolha muito bem feita. Uma entrega muito bem alicerçada.

Lembro-me do dia em que ela me disse: agora sei que você confia em mim. Dali pra cá, depois das afirmações que os sentimentos pedem, depois de eu abrir o meu pesado portão, não sei como pensar em mim sem ela. Não sei como teriam sido os últimos tempos. E fico feliz, de fechar os olhos e apertar as mãos, pela sorte de tê-la comigo.

Hoje, 5 de maio, Cat faz aniversário. Trinta anos como eu, taurina como eu, nascida no Hospital Português como eu, registrada por Gelsa da Cunha Cruz como eu. E tudo isto, apesar de nossas inúmeras e grandes diferenças, é apenas parte de nossas identificações. A melhor delas, aliás, é o tesão que a gente tem pela vida. Como é foda, muito foda, a gente poder lembrar isso uma para a outra: que não merecemos nunca menos que muito, quando alguma das duas dá de se enfraquecer por qualquer razão. Tem sido assim que, desde que nos aceitamos, sabemos que não há tropeço que não possa ser amortecido pelo sorriso que está sempre pronto para ser ofertado.

Não conheço criatura mais leal que ela. É de uma prontidão infalível. É uma mulher honesta, sincera, que fala (e como fala!) o que pensa e não teme as consequências. Se alguém discorda, ela ouve com respeito e cuidado, rebate se achar justo, defende o que acredita. É uma mulher que se propõe a melhorar, mesmo com os medos, desconhecimentos e desafios que precise aprender a enfrentar. Ela é inteligente, bem informada e ninguém ganha dela no Perfil, aquele jogo de conhecimentos gerais da Grow. Cat é interessante. Divertida e engraçada. E me acompanha na cerveja atééééé o final. Até amanhecer. Até só ter vinho ruim pra beber. Sempre queremos mais. Sempre nos renovamos a cada diálogo. Ela dança, faz cena, caras e bocas, tira fotos, conta histórias, arranca gargalhadas, faz dengo, apoia, incentiva, reclama, sofre, resolve e lá vai ela, comprometida com o que é e com quem a cerca. Por sinal, tem tanta gente que cerca e ama esta balzaca que eu só posso entender que o mundo, apesar de tudo, é mesmo uma inesgotável resposta àquilo que nos prestamos.

Catita, minha amiga,
Eu espero ser sempre capaz de honrar o privilégio de sua amizade.
Você, como já disse, me movimenta, me mobiliza. “Companhia certa de todas as horas”.
Estou por você. Obrigada por tudo.
Feliz aniversário!
Te amo.

Difícil escolher uma entre milhares de fotos. Vai esta: esmaguenta!

E, ah!, vou botar este vídeo LINDÃO aqui. É que Cat esteve comigo mesmo eu estando lá do outro lado do Oceano!

24 de abril de 2011

Aí é assim

Não tenho memória de uma Semana Santa que tenha sido assim tão tarde. Tão fim de abril. Tão perto de meu aniversário. Também não lembrava de como eram dias de folga em calmaria. Os últimos foram nas férias, com verão, com viagens, climão de vida em ebulição. Eis que juntou tudo: a preguiça, o mito do inferno astral, a vontade de curtir minha casa, o friozinho, a comilança, o recolhimento. Tenho estado muito próxima de minha intimidade. Tenho mantido contato com desafios internos, perguntas que me faço em segredo. Que só compartilho comigo. Que só eu posso dar conta.

Muita gente tem dificuldade de falar do que sente. Também não sou rainha em me expressar bem. Por isso, sempre usei a palavra escrita como saída para quase tudo. E tenho gostado de não estar recorrendo a isso. Estou dialogando comigo mesma em pensamento, observando minhas atitudes, tentando responder minhas questões com ações, na prática. Acho que nunca fui tão consciente – e em vez de transformar meus dilemas em cartas e teorias, tenho os experimentado. Com menos ansiedade, com mais ponderação, mais sensatez, mais segurança. Porque antes de entender o que o mundo quer de mim, preciso entender o que quero do mundo. Então estou calmamente vendo como as coisas são, o que elas dizem e como me posiciono diante delas.

Aí é assim:
Eu queria que fosse. Mas não é. Faço o quê com isso?
Eu queria que não fosse. Mas é. Vamos nessa.
Eu queria que pudesse. Mas não pode. Como seguir?
Eu queria que não pudesse. Mas pode. Quero isso?

É um exercício e tanto não ter pressa.
Aceitar as lentidões dos processos.
Mesmo que, numa leitura imediata, isto pareça apatia. Aceitação.
E né não. Né não.

Os trinta estão chegando com cheiro bom.

5 de abril de 2011

Mais uma mudança

Morar só era meu maior sonho de consumo, e é minha maior realização. Quando, em 8 de abril de 2010, assinei o contrato de locação do imóvel quarto e sala que hoje me abriga, minúsculo e fofíssimo, perfeitamente localizado, incrivelmente adequado às minhas mais surreais vontades, eu não cabia em mim de felicidade.

Encaixotar meus bagulhos, arrumar malas, transportar tudo, remontar as coisas, arranjar o lugar novo de cada uma delas, comprar (e ganhar) os trocinhos que fazem minha casa ser minha casa – tudo isso foi mágico. Muito mágico.

Lembro da primeira noite, eu e meu mundo, só nós dois, juntos. Eu não sabia se dormia ou sorria. Lembro de como foi me adaptar ao novo ambiente, até aprender a acender a luz sem procurar onde está o interruptor. Lembro das festinhas open house, e do meu orgulho de mostrar tudo para as visitas. Lembro das conversas na varanda, e das tantas vezes que fui até lá, sozinha, para sentir o vento gostoso que entra em meu quarto – e, putaquepariu, como é bom o meu quarto.

Há um ano, este apartamento tão pequeno resguarda e comporta o que vivo, alegrias e tristezas inúmeras. Gosto da luz que faz aqui, do conforto que emana dos detalhes, de como o espaço é bem aproveitado. Cuidar de tudo, manter a casa arrumada, ajeitar dia a dia meus pedaços que se espalham são satisfações que se tornam rotina. Uma rotina boa danada.

Agora, é chegada a hora de me despedir deste conto de fadas. E eu começo a me culpar questionando se aproveitei tanto quanto deveria. Será que deixei algum momento passar em vão? Será que em alguma circunstância esqueci-me do privilégio que é esta moradia? Será que este ano que se passou foi um tempo que honrou esta alegria? Na piscina do playground, só entrei uma vez. Isto é muito grave?

De certa forma, desde os instantes iniciais, eu sabia que esta história era passageira. Meus amigos são testemunhas de minhas agonias. Quando eu vim, eu disse: “mau é que penso que daqui a um ano vai acabar”. Já cheguei temendo o que estou vivendo agora. Talvez por isso eu não tenha me atrevido a sequer fazer furos na parede.

Assim, quando tudo que é meu for retirado, o apartamento retornará idêntico às mãos do dono – com exceção do fato de já ter sido meu lar, e de isto provavelmente me fazer chorar cada vez que eu cruzar a porta do prédio num futuro bem próximo.

Eu e o coração Restart numa das poucas fotos que mostram um tanto do (ainda) meu apê

A vista de minha varanda. Tão deliciosa (coisa boa olhar e ver Dinha logo ali!) quanto bagunçada (ô, como as buzinas incomodam!). Sextas e sábados à noite são sempre a loucura típica das ruas riovermelhísticas.

Aliás, vale mostrar este videozinho filmado por Lubisco na noite da foto acima. Até de reclamar do trânsito na minha porta eu vou sentir saudade.



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Reli um texto que escrevi na época da chegada e... puxa...

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Sobre a razão: renovar o contrato é algo que está além de minha realidade. Ter passado 12 meses neste lugar foi um luxo que não poderei repetir.

1 de abril de 2011

O poder da gentileza masculina

Nunca consigo falar sobre Theo, especialmente para quem não o conhece, sem fazer algum tipo de elogio. Convenhamos: este meu amigo, homem de perfeitos 36 aninhos, arquiteto, cantor e compositor, parece feito sob medida para causar admiração. Aquele tipo de gente cuja ocorrência na população é raríssima. O privilégio, obviamente, não é só dele. É meu. E de todos aqueles que cruzam seu caminho.

Fácil é explicar por que digo isso. O texto, sei de cor. Repito sempre: Theo é bonito. É grande. Tem presença magnânima. É magro sem deixar de ser forte. É forte na medida da naturalidade. O corpo está todo encaixado no lugar certo. Charme puro. Classudo. Para completar, ele sempre cobre esta fartura com proeza: Theo se veste bem e, em seu estilo sempre básico, surpreende pelo bom gosto. Adoro os sapatos dele. É de uma elegância absurda – e elegância, vamos combinar, não se escolhe ter. Elegância é atributo de poucos e, na minha opinião, uma das coisas mais belas que podem existir. Se eu pudesse escolher acordar com uma mudança drástica em minha aparência, ao invés de barriga tanquinho ou qualquer outra coisa, escolheria amanhecer sublimemente elegante.

Daí Theo abre a boca e sai um vozeirão que é uma covardia, acompanhado de uma simpatia e um bom humor que fazem ser impossível não sorrir de volta para ele. É isso: ele sempre olha nos olhos e sorri com sinceridade. Sem contar aquele abraço gigante que te faz sentir querido. E é divertido. Dança. Fala bem. Inteligente, articulado, atencioso. A companhia dele é prazerosa: para papear, para farrear, para beber até de manhã.

Ainda assim, tudo isso é fichinha diante da mais prestigiosa qualidade que um homem pode ter: Theo é gentil. Muito gentil.

Estava hoje, num dos momentos de ócio criativo do expediente, teorizando sobre a gentileza masculina com meus colegas de trabalho. Nada, absolutamente nada, é capaz de ser mais sexy, atraente, forte e imperativo do que um homem com tal predicado. Mas há de ser numa medida exata: sem excessos, sem forçação, sem subserviência. A gentileza arrebatadora é aquela que jamais se assemelha a insegurança ou desajeito. É aquela que, pelo contrário, expressa a altivez de quem confia em seu taco, de quem reconhece o que é respeito, de quem é soberano o suficiente para tratar o mundo de forma limpidamente educada.

Em vez de querer dominar o pedaço com agrestia, como agem alguns brutamontes que envergonham a humanidade, os rapazes gentis arrebatam lances de mestre, acumulando fãs que geralmente não saberão dizer o que é que causa tamanha atração. Há algo de misterioso, mesmo. É que você olha para aquele ser humano no alto de sua capacidade luminosa e conclui que se tornaria um feliz e eterno escravo de suas atitudes gentis. Nada, absolutamente nada, confere tanto poder a um macho.

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Nota para quem possa ter se iludido que coisa assim estaria dando sopa:
Theo é um homem casado. Não se anime.

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Para ver e ouvir Theo, à frente de sua banda: Os Irmãos da Bailarina. A letra é dele também.

31 de março de 2011

Só porque este blog não será abandonado

Quem, como eu, é gente escrava das palavras está escrevendo sempre, mesmo que não vire um texto oficialmente. Eu passo o tempo inteiro pensando com base em histórias, em ordenamento, montando as peripécias da mente em forma de livro, que vou lendo como se estivesse em minha frente.

Nestas lucubrações dos últimos dias, iniciei, desenvolvi e finalizei uma dezena de artigos, crônicas e resenhas que, prometi, viriam parar no blog. Esqueci já da metade, visto não ter o hábito de anotar os devaneios. O resto, simplesmente não tive oportunidade de fazer virar coisa além de mim. Ainda está tudo embolado aqui dentro.

Daqui a alguns minutos (faltam só nove páginas e meia das 322 totais!), terei finalizado mais um trabalho árduo de revisão e, espero, poderei voltar a reservar parte do meu tempo para brincar de ser blogueira.

E vim dizer isso só para março não passar em branco nesta singela página virtual.
Até logo!

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Update
Acabeeeeeeeeeeeeeeeeei!

12 de fevereiro de 2011

Narcisa

Modéstia embaixo do tapete:
a Paula 2011 é a melhor Paula que existe.
Disparado.

25 de janeiro de 2011

Desintoxicação

Certa vez, passei um dia inteiro à base de uma lista de tenebrosos sucos de misturas de ingredientes que não combinam, coisas como maçã com espinafre, beterraba e ervilha, porque aquilo prometia desintoxicar meu organismo. Há infidáveis receitas e dietas de desintoxicação que nunca soube direito se realmente têm fundamento. Mas eu tentei. Às vezes a gente sente esta necessidade de limpeza.

Estar numa cidade cuja até lógica do trânsito é invertida em relação àquilo que vi em todos os momentos dos meus quase 30 anos tem sido uma efetiva e completa lavagem. Tudo se renova diante do olhar, dos ouvidos, de todos sentidos. Os cheiros são novos, os gostos também, a textura do ar é outra, o frio me aquece intimamente e os símbolos precisam ser decifrados. É uma desintoxicação ambiental. E de alma. Limpa tudo para abrir espaço ao que é desconhecido e que me pede atenção em cada rua atravessada, cada tentativa de diálogo, cada vez que me perco entre as moedas que não me são familiares. Nada é automático. Nada é por costume, rotineiro, cansativo, repetitivo. Nenhuma paisagem é comum nem passa sem ser vista. Tudo se absorve. O óbvio torna-se inexistente. Todo segundo que se concretiza é uma nova surpresa que torna o dia mais inteiro. Mais meu. Mais eu. É preciso estar muito consigo para viver a experiência de desvendar o que nos cerca.

É deliciosamente esquisito não estar localizada, não ter um background que anteveja o que há na próxima esquina, na próxima abordagem. São rostos e tipos diferentes, arquitetura deslumbrante, um emaranhado de línguas e sotaques, tanta coisa para descobrir. Ao mesmo tempo, é fantástico, a cada dia, começar a reconhecer a segurança de que sei voltar pra casa, e desenvolver habilidades. Sozinha. É sozinha que tenho estado a maior parte do tempo, mesmo que acompanhada por gente que nunca vi antes, e que não verei de novo. Sozinha dormirei esta noite, o que estranhamente causa uma sensação de pertencimento. Estou pertencendo a Londres e Londres parece existir só pra que eu esteja aqui, amando tudo.

31 de dezembro de 2010

Para 2011 e para a vida

Ouvir meu coração, quando for para o meu bem.
Ouvir meu racional, quando for para o meu bem.
Não boicotar a plenitude de minha dignidade.
Honrar o meu merecimento.

21 de dezembro de 2010

Interpretando sonhos

O amor queria me levar pra um lugar que eu nunca fui. Era um oceano em forma de banho de mar. Era entrar num íntimo de quem pode se dispor a dizer sim. Era aceitar dividir os tesouros. E os sorrisos. E os segredos. A própria vida. Mas as praias estavam cheias, o transporte era irresponsável e o caminho foi alterado. O sol, como de costume, me incomodava. O mar virou piscina. Piscina com muita gente, pública, constrangedora. A piscina virou pia. Que podia até matar a sede, caso a água não fosse suja. Saí escondida, acenando de longe, porque tenho vergonha. Voltei sozinha e assim fiquei, em meio a pessoas que não mais fazem parte do meu mundo. Envolta pelas barreiras. Nada mais estava sob meu controle. O amor não conseguiu saciar sua vontade.